Mãos sobre o teclado novamente. Como se fosse um cego sinto a textura de cada tecla. Desejo ter uma noite de sensações. Fecho os olhos e fico apenas com o som que vem da rua. A chuva batendo na janela. Forte. Decidida a cair sobre a minha casa. Aguda em cada gota...
Apago as luzes. E a escuridão me dá presentes. Palavras soltas que nascem para fazer sentido. Me convidam pra dançar. E... de pronto as aceito. Sejam bem vindas. Palavras de mim.
11 janeiro 2011
26 julho 2010
AMANHECER

Me lembro perfeitamente da primeira vez que vi o dia amanhecer.
Foi no Novo Horizonte - um bairro da periferia de Goiânia. Eu devia ter uns cinco anos ou menos. Estava numa festa com os meus pais. Por alguns instantes eles esqueceram de mim e da hora de ir pra casa.
E o dia amanheceu.
Lembro, como se fosse hoje, que o amanhecer parecia o desvendar de um mistério.
Ver a noite virar dia bem diante dos meus olhos.
Uma aventura.
Fiquei por um tempo olhando para o céu.
Ver o azul escuro se transformar em cinza e o cinza em azul...
No fim de semana, vi esse milagre acontecer mais uma vez diante de mim.
Olhos mais vividos. Bem mais velho do que naquele dia, no interior do Brasil.
Mas a magia continuava a mesma. O mistério se desfazendo acima de mim.
Voltei a ter a energia dos cinco anos.
E a vida voltou a ser simples como era antes.
Acho que minha noite também virou dia... mandou a gripe embora... as dores na alma... e os medos.
Agora, que venha o sol!
11 julho 2010
Encapsulado
Sentado na pequena sala.
Sensação estranha.
Estreito demais.
Cheiro de cigarro e incenso.
Música.
Álcool.
E desespero.
Volume no máximo.
É o máximo de mim.
Foi o máximo.
Sempre gostei de testar os meus limites.
E a vida sempre gostou de me testar. Eu sei que você sempre gostou.
Sempre me achei bom(zinho).
E a vida me fez o favor de colocar momentos de grande maldade.
Será que é verdade?
Às vezes, bem às vezes quero crer que sim.
Estou cercado.
Me cerquei.
Tantas vozes.
Tantos desejos.
Tantos sussurros.
Todos dentro da minha cabeça.
Dançando ao som das minhas velhas músicas. Mais uma contração...
Como dói parir idéias.
Medo de trincar o espelho. Já trincado.
De ficar com a geladeira vazia.
De tocar a música errada.
De estar errado.
E ter a certeza que que o certo está tão perto.
Hoje descobri um dom. Uma especie de poder. Super poder.
O de me encapsular...
Virei meu próprio comprimido. Cápsula plástica.
Transparente.
E o mundo lá fora.
Estou protegido. Até quando?
E quanto isso irá me custar.
Podem gritar... Gritem a vontade.
Vocês não me incomodam mais.
Os sons nunca me incomodaram.
Mas, por favor, parem de gritar dentro de mim.
Alma atormentada.
Intenso demais para sobreviver a mim mesmo. Levem um pouco de mim quando forem embora... da minha casa.
Estou dentro da capsula.
Vendo a vida embaçada.
Sons embaçados.
Meu suor embaçando minha própria visão.
Overdose do meu cheiro.
Plástico roçando a minha pele.
Palavras soltas.
Meu varal estendido. Desta vez tão sem sentido.
Damas em primeiro lugar.
E os cavalheiros que se danem. Que esperem seus cavaleiros...
Cavaletes... E uma tela...
Sem coragem para pintar. Sem coragem.
Coragem apenas para dizer que sou...
Sou tão...ENCAPSULADO...
Sensação estranha.
Estreito demais.
Cheiro de cigarro e incenso.
Música.
Álcool.
E desespero.
Volume no máximo.
É o máximo de mim.
Foi o máximo.
Sempre gostei de testar os meus limites.
E a vida sempre gostou de me testar. Eu sei que você sempre gostou.
Sempre me achei bom(zinho).
E a vida me fez o favor de colocar momentos de grande maldade.
Será que é verdade?
Às vezes, bem às vezes quero crer que sim.
Estou cercado.
Me cerquei.
Tantas vozes.
Tantos desejos.
Tantos sussurros.
Todos dentro da minha cabeça.
Dançando ao som das minhas velhas músicas. Mais uma contração...
Como dói parir idéias.
Medo de trincar o espelho. Já trincado.
De ficar com a geladeira vazia.
De tocar a música errada.
De estar errado.
E ter a certeza que que o certo está tão perto.
Hoje descobri um dom. Uma especie de poder. Super poder.
O de me encapsular...
Virei meu próprio comprimido. Cápsula plástica.
Transparente.
E o mundo lá fora.
Estou protegido. Até quando?
E quanto isso irá me custar.
Podem gritar... Gritem a vontade.
Vocês não me incomodam mais.
Os sons nunca me incomodaram.
Mas, por favor, parem de gritar dentro de mim.
Alma atormentada.
Intenso demais para sobreviver a mim mesmo. Levem um pouco de mim quando forem embora... da minha casa.
Estou dentro da capsula.
Vendo a vida embaçada.
Sons embaçados.
Meu suor embaçando minha própria visão.
Overdose do meu cheiro.
Plástico roçando a minha pele.
Palavras soltas.
Meu varal estendido. Desta vez tão sem sentido.
Damas em primeiro lugar.
E os cavalheiros que se danem. Que esperem seus cavaleiros...
Cavaletes... E uma tela...
Sem coragem para pintar. Sem coragem.
Coragem apenas para dizer que sou...
Sou tão...ENCAPSULADO...
21 abril 2010
A DAMA - uma ficção inspirada em fatos reais.
É noite. O quarto escuro. Aquele calor comum nas regiões do centro do Brasil. A pele enrugada sua sobre uma velha cama de casal. O espelho da penteadeira reflete sua imagem. Roupas de cama sujas. Um velho cobertor aos pés da cama. Cheiro de velhice. Corpo magro. Pesando sobre o fino colchão de molas. Pouca luz para quem já não enxerga quase nada. O olho direito se apagou faz anos. O esquerdo padece de uma grave catarata. Os vultos são os seus companheiros. A audição já se confunde entre a realidade e os barulhos do que foi uma vida inteira. A mente cansada prega peças. É difícil saber o que é realidade ou devaneio. Lampejos de sanidade. E logo os vultos aparecem. Tantas lembranças perdidas, confusas. A cronologia a abandou faz tempo. Está condenada a esperar.
Os olhos enrugados se abrem em busca de um pouco de luz. Um pouco de ar. Para refrescar os pulmões cansados. A voz é fraca. E há tão pouco para ser dito.
A janela se abre. É um quarto dos fundos. Vista pouco privilegiada. Vê-se apenas a área de serviço. Mas para quem está presa a uma cama durante tanto tempo, a área de serviço parece um oásis. As mãos enrugadas e trêmulas se esforçam para chegar aos cabelos. Secos. Amassados pela posição ereta. Poucos fios. Mal lavados. Mal cuidados. A vaidade também a abandou. As pernas se movimentam pouco. Estão magras. Flácidas.
Quem diria. Já andaram por tantos lugares. Viajaram tanto. Dançaram tanto. E agora, pesam sobre a cama. Unhas por cortar.
Até que uma brisa invade o quarto através da pequena janela. A brisa no rosto. Olhos fechados. E um leve sorriso. Quantas vezes esse rosto não sentiu brisas ao longo da vida. A dama sobre a cama relembra tanta coisa. Se entregou a um homem que nunca amou de verdade. Foi forte para construir uma família. E vê-la ser divida com a amante. Tempos difíceis aqueles. Em que o silêncio era virtude de mulheres bem educadas. A juventude foi gasta em nome da moral. E por ela foi capaz de fazer horrores. A moral a cegou por tantas vezes. Viu a sua família crescer, amadurecer e apodrecer diante dos seus olhos. Viveu momentos importantes da história mundial. Da história do Brasil. Mas não teve tempo de descobrir a própria história. Vítima da geração obrigada ao sucesso e a felicidade modelada. Viu seus filhos e netos se divorciarem. Uma revolução. A primeira gravidez fora do casamento. Filhos presos por uso de drogas. Pela repressão militar. Pela selvageria que tomou conta do mundo nos anos difíceis das ditaduras.
Uma dama. Em plena revolução.
Atropelada pelo tanque de guerra. O que sobrou? A brutalidade. Como em todos que passam os horrores dos fatos históricos. Austera demais para beijar os frutos do seu casamento. Não me lembro de vê-la beijando alguém. Me lembro do medo que a dama despertava em nós. A Rainha de um jogo de xadrez. Agora tombada sobre o tabuleiro. Seus herdeiros destruídos pela história. Soldados que deserdaram e seguiram seus próprios destinos. Cada um seguiu um caminho tortuoso. Difícil demais para quem foi programado ao sucesso. Ao luxo e ao dinheiro. Uma avalanche tomou conta de sua vida. Hoje ela está só sobre a cama. Me pergunto se ela ainda acalenta todos esses pensamentos. Ou se eles também a abandonaram. O vazio do quarto. Seus pertences perdidos. O que a Dama deixará para o futuro? Qual a sua herança? Tarde demais para perguntar isso. Há décadas vive só. O marido morreu há anos. Foi obrigada a enterrar um dos filhos – que colocou pra fora de casa. E foi encontrado morto tempos depois. Vítima de abandono.
Mas uma dama não pode ser responsabilizada. Esta era uma daquelas mulheres de época. Infelizmente destruída pela época que viveu. Foi uma das últimas. Massacrada pelas transformações sociais. E incapaz de ver que o mundo estava se transformando. Hoje, deitada na cama, quase noventa anos, ela sabe que o mundo mudou. Pena não ter conseguido mudar junto com ele.
Deitada sobre a cama, sentindo a brisa no rosto enrugado, provavelmente sabe que perdeu tempo. A mulher que falava com os espíritos agora está em silêncio completo. Não sente mais o peso do corpo. Os olhos estão fechados. A brisa se transformou em vento. Agita a velha cortina dentro do quarto escuro.
Mas ao fundo é possível ouvir um velho tango. Carlos Gardel. E aos poucos a vontade de dançar aparece.
O espelho da antiga penteadeira não reflete mais a velha dama. Me lembro apenas dos cabelos de cor acaju. Cheiro de laquê. Armados e impecáveis. O quarto não cheira mais a velhice. Está em festa. A velha dama saiu para o baile. Vai dançar um tango, como sempre gostou. Uma música merecida. Para quem perambulou tanto nesse planeta. Perambule agora pelo salão. Dê piruetas e comemore a vida. Tudo é lição.
Quando a velha cama de casal desaparecer do quarto. A casa antiga for vendida... as roupas do guarda-roupa não existirem mais... teremos a certeza de que os tempos mudaram.
E é inevitável não mudarmos com ele também.
Uma homenagem a uma pessoa querida que faleceu semana passada. Mais um pedacinho de mim se vai. Descanse. Você merece. E até o nosso próximo encontro.
Os olhos enrugados se abrem em busca de um pouco de luz. Um pouco de ar. Para refrescar os pulmões cansados. A voz é fraca. E há tão pouco para ser dito.
A janela se abre. É um quarto dos fundos. Vista pouco privilegiada. Vê-se apenas a área de serviço. Mas para quem está presa a uma cama durante tanto tempo, a área de serviço parece um oásis. As mãos enrugadas e trêmulas se esforçam para chegar aos cabelos. Secos. Amassados pela posição ereta. Poucos fios. Mal lavados. Mal cuidados. A vaidade também a abandou. As pernas se movimentam pouco. Estão magras. Flácidas.
Quem diria. Já andaram por tantos lugares. Viajaram tanto. Dançaram tanto. E agora, pesam sobre a cama. Unhas por cortar.
Até que uma brisa invade o quarto através da pequena janela. A brisa no rosto. Olhos fechados. E um leve sorriso. Quantas vezes esse rosto não sentiu brisas ao longo da vida. A dama sobre a cama relembra tanta coisa. Se entregou a um homem que nunca amou de verdade. Foi forte para construir uma família. E vê-la ser divida com a amante. Tempos difíceis aqueles. Em que o silêncio era virtude de mulheres bem educadas. A juventude foi gasta em nome da moral. E por ela foi capaz de fazer horrores. A moral a cegou por tantas vezes. Viu a sua família crescer, amadurecer e apodrecer diante dos seus olhos. Viveu momentos importantes da história mundial. Da história do Brasil. Mas não teve tempo de descobrir a própria história. Vítima da geração obrigada ao sucesso e a felicidade modelada. Viu seus filhos e netos se divorciarem. Uma revolução. A primeira gravidez fora do casamento. Filhos presos por uso de drogas. Pela repressão militar. Pela selvageria que tomou conta do mundo nos anos difíceis das ditaduras.
Uma dama. Em plena revolução.
Atropelada pelo tanque de guerra. O que sobrou? A brutalidade. Como em todos que passam os horrores dos fatos históricos. Austera demais para beijar os frutos do seu casamento. Não me lembro de vê-la beijando alguém. Me lembro do medo que a dama despertava em nós. A Rainha de um jogo de xadrez. Agora tombada sobre o tabuleiro. Seus herdeiros destruídos pela história. Soldados que deserdaram e seguiram seus próprios destinos. Cada um seguiu um caminho tortuoso. Difícil demais para quem foi programado ao sucesso. Ao luxo e ao dinheiro. Uma avalanche tomou conta de sua vida. Hoje ela está só sobre a cama. Me pergunto se ela ainda acalenta todos esses pensamentos. Ou se eles também a abandonaram. O vazio do quarto. Seus pertences perdidos. O que a Dama deixará para o futuro? Qual a sua herança? Tarde demais para perguntar isso. Há décadas vive só. O marido morreu há anos. Foi obrigada a enterrar um dos filhos – que colocou pra fora de casa. E foi encontrado morto tempos depois. Vítima de abandono.
Mas uma dama não pode ser responsabilizada. Esta era uma daquelas mulheres de época. Infelizmente destruída pela época que viveu. Foi uma das últimas. Massacrada pelas transformações sociais. E incapaz de ver que o mundo estava se transformando. Hoje, deitada na cama, quase noventa anos, ela sabe que o mundo mudou. Pena não ter conseguido mudar junto com ele.
Deitada sobre a cama, sentindo a brisa no rosto enrugado, provavelmente sabe que perdeu tempo. A mulher que falava com os espíritos agora está em silêncio completo. Não sente mais o peso do corpo. Os olhos estão fechados. A brisa se transformou em vento. Agita a velha cortina dentro do quarto escuro.
Mas ao fundo é possível ouvir um velho tango. Carlos Gardel. E aos poucos a vontade de dançar aparece.
O espelho da antiga penteadeira não reflete mais a velha dama. Me lembro apenas dos cabelos de cor acaju. Cheiro de laquê. Armados e impecáveis. O quarto não cheira mais a velhice. Está em festa. A velha dama saiu para o baile. Vai dançar um tango, como sempre gostou. Uma música merecida. Para quem perambulou tanto nesse planeta. Perambule agora pelo salão. Dê piruetas e comemore a vida. Tudo é lição.
Quando a velha cama de casal desaparecer do quarto. A casa antiga for vendida... as roupas do guarda-roupa não existirem mais... teremos a certeza de que os tempos mudaram.
E é inevitável não mudarmos com ele também.
Uma homenagem a uma pessoa querida que faleceu semana passada. Mais um pedacinho de mim se vai. Descanse. Você merece. E até o nosso próximo encontro.
18 fevereiro 2010
ARANHA VOADORA.
Dê a ela uma fagulha, uma fagulha que seja, e ela será capaz de transformá-la em um imenso incêndio.Dê a ela uma faísca, uma mínima faísca, e ela será capaz de devolver-lhe um choque de centenas de volts.
Dê uma migalha, e terá de volta um banquete.
Uma gota, e terá um rio.
Dê a ela, uma lágrima, uma pequena e sincera lágrima, e você terá de volta o mar inteiro. Uma imensidão de sensações.
Dê a ela um pouco de tempo, e terá uma eternidade.
Um pouco de sono e descobrirá a definição certeira do estado de coma.
Um fio de cabelo lhe trará de volta uma tese complexa sobre a origem da música sertaneja.
Cuidado com aranhas voadoras. Elas tecem suas teias no ar.
Não se sustentam em nada. Não se prendem em nada. Flutuam desenhando suas trilhas.
Dê a ela uma linha e terá o carretel inteiro.
Desenrolado.
Cheio de nós meticulosamente elaborados.
Dê a ela um motivo, um pensamento que seja. Uma nesga de possibilidade. E ela será capaz de construir uma obra de arte.
Aranhas voadoras são tecelãs por natureza.
Crescem em emaranhados de teias.
Este é o seu lar. Seu habitat natural.
Desfilam com maestria por esse terreno. Não nasceram para rastejar pelo chão.
São leves demais para manter o peso que se precisa ter para viver aqui embaixo.
Aranhas voadoras voam mesmo sem asas.
Ficam à espreita do vento.
Finas, delicadas. Carregadas pelo vento.
Não são aranhas comuns. Não nascem em bandos. Não crescem ao lado de outras aranhas. Não comem seus amantes.
Raramente têm amantes.
O vento, seu principal aliado, também é o seu maior inimigo. Não as deixam ficar muito tempo num mesmo lugar.
Ninguém sabe dizer quanto tempo uma aranha voadora consegue viver.
Elas sempre desaparecem antes que isso aconteça.
Dizem por aí que se enrolam na própria teia. Até sumirem. Sufocam-se lentamente. Enrolam-se no fio dourado da vida. E desaparecem.
Elegantes, como uma aranha deve ser.
Discreta, como os que detêm a leveza de poder voar.
Dê as aranhas voadoras um segundo, e terão horas de entretenimento.
Uma segunda chance, e não perderão mais chance alguma.
Olhem para ela uma única vez... E jamais se sentirão sozinhos novamente.
Até o dia em que o vento chegar mais forte.
Dizem que só os fortes são capazes de amar aranhas voadoras.
Fortes para brigar contra o vento...
Para arrebentar as teias da vida...
E se arriscar na vida longe da terra.
10 fevereiro 2010
05...10...15...20...25...30...35...
Aos 05 – Ganhei uma estrelinha por ser o melhor aluno na escola.
Aos 10 – Descobri que tinha ereção. E que esse “fenômeno” da natureza me acompanharia para o resto da vida... A primeira pessoa que ficou sabendo foi a minha mãe. Contei pra ela durante o banho. Achei que era um problema... Só depois descobri que era a solução...
Aos 15 – Não tive festa de debutante. E descobri que existiam dois mundos bem definidos. Os meninos e as meninas. E que os sonhos deveriam ser diferentes. Um azul e outro rosa... Surgiram as festas de 15 anos. Música lenta. As primeiras ressacas. E o desejo de ter dezoito anos.
Aos 20 – O primeiro grande amor. E aquela sensação de que isso iria me perseguir pelo resto da vida. A primeira grande dor de amor veio também aos vinte. E aquela sensação de que era preciso esperar mais um pouco. E um dia sentir saudade dos dezoito anos.
Aos 25 – A responsabilidade. Hehehehehehehehehehehehehe. Aquilo que a gente acha que é responsabilidade. Salário. As contas a pagar. O carro. Coisas da vida. Achei que seria rico. Tudo me levava a crer que eu seria rico.
Aos 30 – Fui testemunha de que existe a crise dos 30. Com todos os seus requintes. Mudanças. E a felicidade de descobrir que as coisas podem ser modificadas quando a gente sentir vontade e tiver coragem.
E agora os 35 – Veio aquela estranha sensação de que não se pode resumir esse tempo todo em apenas sete momentos importantes. Número cabalístico. Estou aqui, há trinta e cinco anos. E experimentei trinta e cinco vezes a experiência do nascimento. Parido. Expulso para este mundinho de meu Deus. Caminhando para a meia idade. Para o máximo que meu corpo poderá me dar. Meu melhor esperma... Meu melhor estado físico. Meu melhor poder sexual. Sou um animal na plenitude... No alto da colina. Juba vistosa. Dentes afiados. Olfato impecável. Músculos enrijecidos. Olhando a relva. A selva. O mundo ao meu redor. E, no fundo sabendo que cada descoberta é a despedida. Em breve outro animal chegará. Mais peludo, mais forte, mais animal... E essa trajetória iniciará outro caminho.
E fico aqui me perguntando:
Este será só mais um dia?
Comum para uma centena de pessoas?
Mas, para algumas (assim como eu) este será um dia diferente. Aquelas coisas sociais que a gente cresce acostumado a seguir. Cumprimentos de feliz aniversário. Desejos de felicidades. Essas coisas. Na verdade queria que o aniversário fosse um evento. A meia noite, o aniversariante mudaria de cor. Eu queria ficar azul. Assim, todo mundo saberia que é o meu aniversário. Não haveria desculpas para o esquecimento. E os estranhos teriam a oportunidade de nos parabenizar. Daqui há quinze minutos – a meia noite – eu ficaria azul. E passaria dessa cor, até a meia noite do dia 11. Esse seria o meu dia. Andaria pela Paulista azul de aniversário. No metrô, as pessoas me dariam parabéns. Porque estou azul. E ainda correria o risco de encontrar alguém verde. E parabenizar um estranho que faz aniversário no mesmo dia que eu.
Porque restringir o meu aniversário a mim somente?
“Quem sabe então assim, você repare em mim..." diz a música que vem do som na minha sala.
Vamos liberar a festa para a coletividade. Hoje, meu desejo de aniversário é amanhecer azul... Inteiro. Dos pés à cabeça... Até pensei na roupa certa para o trabalho. Um básico. Azul. Seria uma pessoa azul andando pela rua. Ninguém, precisaria ter o número do meu telefone para descobrir que hoje é o meu aniversário. Ninguém também teria que se preocupar em lembrar o aniversário do melhor amigo. A gente acordaria colorido... e pronto.
Meia noite...
Ainda estou vestido a cor da pele.
Não fiquei azul.
Mas decidi o que fazer...
“Vou deixar a rua me levar... ver a cidade se acender...”
Lá se vai a camisa... No chão da cozinha. Sinto a pouca brisa de um dia quente de verão. Um dia quente de aquecimento global.
Adeus sapatos e meias. E consigo sentir o frio do piso da cozinha. Um certo arrepio da aventura de me despir.
Não quero mais o relógio. Objeto cheio de história. Ganhei-o em meados de 1997... Tentei afogá-lo no mar, no Rio, o de Janeiro. E meu pai, anos depois, o salvou da gaveta. Trocou a bateria. E descobri que as coisas a prova d água existem... A prova do tempo também.
O jeans foi embora em frente a geladeira. Sentir o frio nas minhas pernas. Mãos frias segurando a lata. E seguimos o nosso destino. Copo cheio. Gole perfeito. Música ideal... O primeiro telefonema... Parabéns pelos trinta e cinco. De quem ama demais ao ponto de se manter acordado para te agraciar...
E lá se vai a cueca.
Estou nu nos meus primeiros instantes de vida... Mais uma vez. Nu.
E a liberdade toma conta de mim. O frio do encosto da cadeira... O vento no rosto. E aí me vejo bruxo e predigo: meus 35 serão livres...
Serei um ser azul...
andando pela Paulista...
Nu... ouvindo as músicas que me agradam... E aí poderei dizer:
O que você fez aos trinta e cinco?
Eu sei o que eu fiz no primeiro dia dos 35...
Fiquei livre... em pêlo.
Pelo menos...
Aos 10 – Descobri que tinha ereção. E que esse “fenômeno” da natureza me acompanharia para o resto da vida... A primeira pessoa que ficou sabendo foi a minha mãe. Contei pra ela durante o banho. Achei que era um problema... Só depois descobri que era a solução...
Aos 15 – Não tive festa de debutante. E descobri que existiam dois mundos bem definidos. Os meninos e as meninas. E que os sonhos deveriam ser diferentes. Um azul e outro rosa... Surgiram as festas de 15 anos. Música lenta. As primeiras ressacas. E o desejo de ter dezoito anos.
Aos 20 – O primeiro grande amor. E aquela sensação de que isso iria me perseguir pelo resto da vida. A primeira grande dor de amor veio também aos vinte. E aquela sensação de que era preciso esperar mais um pouco. E um dia sentir saudade dos dezoito anos.
Aos 25 – A responsabilidade. Hehehehehehehehehehehehehe. Aquilo que a gente acha que é responsabilidade. Salário. As contas a pagar. O carro. Coisas da vida. Achei que seria rico. Tudo me levava a crer que eu seria rico.
Aos 30 – Fui testemunha de que existe a crise dos 30. Com todos os seus requintes. Mudanças. E a felicidade de descobrir que as coisas podem ser modificadas quando a gente sentir vontade e tiver coragem.
E agora os 35 – Veio aquela estranha sensação de que não se pode resumir esse tempo todo em apenas sete momentos importantes. Número cabalístico. Estou aqui, há trinta e cinco anos. E experimentei trinta e cinco vezes a experiência do nascimento. Parido. Expulso para este mundinho de meu Deus. Caminhando para a meia idade. Para o máximo que meu corpo poderá me dar. Meu melhor esperma... Meu melhor estado físico. Meu melhor poder sexual. Sou um animal na plenitude... No alto da colina. Juba vistosa. Dentes afiados. Olfato impecável. Músculos enrijecidos. Olhando a relva. A selva. O mundo ao meu redor. E, no fundo sabendo que cada descoberta é a despedida. Em breve outro animal chegará. Mais peludo, mais forte, mais animal... E essa trajetória iniciará outro caminho.
E fico aqui me perguntando:
Este será só mais um dia?
Comum para uma centena de pessoas?
Mas, para algumas (assim como eu) este será um dia diferente. Aquelas coisas sociais que a gente cresce acostumado a seguir. Cumprimentos de feliz aniversário. Desejos de felicidades. Essas coisas. Na verdade queria que o aniversário fosse um evento. A meia noite, o aniversariante mudaria de cor. Eu queria ficar azul. Assim, todo mundo saberia que é o meu aniversário. Não haveria desculpas para o esquecimento. E os estranhos teriam a oportunidade de nos parabenizar. Daqui há quinze minutos – a meia noite – eu ficaria azul. E passaria dessa cor, até a meia noite do dia 11. Esse seria o meu dia. Andaria pela Paulista azul de aniversário. No metrô, as pessoas me dariam parabéns. Porque estou azul. E ainda correria o risco de encontrar alguém verde. E parabenizar um estranho que faz aniversário no mesmo dia que eu.
Porque restringir o meu aniversário a mim somente?
“Quem sabe então assim, você repare em mim..." diz a música que vem do som na minha sala.
Vamos liberar a festa para a coletividade. Hoje, meu desejo de aniversário é amanhecer azul... Inteiro. Dos pés à cabeça... Até pensei na roupa certa para o trabalho. Um básico. Azul. Seria uma pessoa azul andando pela rua. Ninguém, precisaria ter o número do meu telefone para descobrir que hoje é o meu aniversário. Ninguém também teria que se preocupar em lembrar o aniversário do melhor amigo. A gente acordaria colorido... e pronto.
Meia noite...
Ainda estou vestido a cor da pele.
Não fiquei azul.
Mas decidi o que fazer...
“Vou deixar a rua me levar... ver a cidade se acender...”
Lá se vai a camisa... No chão da cozinha. Sinto a pouca brisa de um dia quente de verão. Um dia quente de aquecimento global.
Adeus sapatos e meias. E consigo sentir o frio do piso da cozinha. Um certo arrepio da aventura de me despir.
Não quero mais o relógio. Objeto cheio de história. Ganhei-o em meados de 1997... Tentei afogá-lo no mar, no Rio, o de Janeiro. E meu pai, anos depois, o salvou da gaveta. Trocou a bateria. E descobri que as coisas a prova d água existem... A prova do tempo também.
O jeans foi embora em frente a geladeira. Sentir o frio nas minhas pernas. Mãos frias segurando a lata. E seguimos o nosso destino. Copo cheio. Gole perfeito. Música ideal... O primeiro telefonema... Parabéns pelos trinta e cinco. De quem ama demais ao ponto de se manter acordado para te agraciar...
E lá se vai a cueca.
Estou nu nos meus primeiros instantes de vida... Mais uma vez. Nu.
E a liberdade toma conta de mim. O frio do encosto da cadeira... O vento no rosto. E aí me vejo bruxo e predigo: meus 35 serão livres...
Serei um ser azul...
andando pela Paulista...
Nu... ouvindo as músicas que me agradam... E aí poderei dizer:
O que você fez aos trinta e cinco?
Eu sei o que eu fiz no primeiro dia dos 35...
Fiquei livre... em pêlo.
Pelo menos...
28 janeiro 2010
No silêncio das letras.
Precisava de uma página em branco.
Uma noite limpa. Sem que nada tivesse sido escrito nela antes.
E a partir daí sair rabiscando minhas impressões nessa misteriosa teia de observações.
Com tanto medo. E ao mesmo tempo, sem medo de aparecer. E enquanto rabisco meus traços tortos e rudimentares vejo o que é tão claro.
Aquilo que é sempre escondido.
Escondidinho.
Não nasci para aqueles que apontam. Infelizmente. Não nasci para aqueles que me tocam com suas mãos frias e suadas de medo.
Às vezes acho que ainda não nasci. Quando penso que estou voltando é quando mais caminho adiante. E seguir em frente dá um medo. E esse medo vai estar comigo pra sempre.
Medo bobo de criança...
de jovem...
de adulto.
É como esquecer de pagar uma conta que venceu. Ela te persegue. Você acorda no meio da noite e lembra que deixou de pagar a conta. Perde o sono. É tarde demais.
E de repente somos perseguidos. E damos voltas. Piruetas para despistar o destino. Destino?
Sera?
Não.
Ninguém despista o destino. A gente enrola a vida. E enrolar é comigo mesmo. É uma delícia. Dá um prazer dizer mais do que o necessário. Perder tempo, linhas, toques e palavras. Esbanjar sentidos e significados. Enquanto o objetivo final está ali. Estirado a nossa frente.
Existem dias em que os dias parecem os últimos. E depois deles não haverá nenhum outro. E quando isso acontece a gente deixa de ser humano. Passa a ser animal. Irracional. E come o alimento do outro. Arranca a comida do próximo. Sem dó. Precisamos sobreviver. E quando me roubam a comida... aquela que pedi com cuidado. Ou plantei com esmero. Eu apenas olho.
Olho.
Vejo a minha comida ir embora. Arrancada de minhas mãos. Fico complacente com os outros pobres ao meu redor.
Mas qual o limite da complacência?
Até que eu morra de fome?
Fraco?
Ou até que eu grite de raiva. Mesmo com a sensação de que ninguém irá me ouvir. Em alguns momentos consigo ver que os que me roubam sentem muito mais fome que eu. Estão muito mais esfomeados do que eu. São famintos e por isso me agridem. Assim como eu o faria.
E me impressiona como os famintos parecem fortes.
Me encanta a força que o instinto de sobrevivência imprime nas pessoas.
Pensei agora há pouco o que teria sido de mim se estivesse no Haiti. Sobrevivente do terremoto. Sem família, sem casa, sem comida. Vejo aquelas pessoas se amontoarem em filas, em conglomerados de pedintes, animais racionais irracionalmente enfileirados. Em busca de comida. E quando uma caixa aparece eles a disputam com tanta força. E aqui, sentado na minha cozinha, tenho a certeza que sentaria no chão e me arrependeria de estar vivo. E a tristeza toma conta de mim quando a constatação é simples. Fraco demais para uma luta.
Por favor, enviem mais comida aos desabrigados.
Não os obriguem a brigar entre si.
Ou deixar a irracionalidade ser a única saída racional.
Me lembro de um dia que estava sentado na calçada, na parada de ônibus, 12, 13 anos. Fui ameaçado por dois meninos mais velhos. Queriam me bater. Aquelas coisas de adolescência. Eu reagi – com tanto medo – e os mandei à merda. Eles voltaram e me bateram tanto. Na frente de todos que estavam naquela parada de ônibus.
Acho que naquele dia decidi que era mais seguro não enfrentar as pessoas.
Deixa... que uma hora elas vão cansar e vão embora.
É incrível como essa decisão virou regra na minha vida. E hoje, sentado na minha casa, ainda tento me despedir desses meninos. Acho que já chega. Vocês não fizeram por mal. Mas, agora preciso ir. Tento me desfazer da vergonha de apanhar em público e agir como se nada tivesse acontecido.
Tanto tempo depois ainda escolho os mesmos meninos para sentarem ao meu lado. Está na hora de mudar de acento.
Na minha profissão aprendi que os finais dos textos devem ser positivos. Pra cima. Devem levar uma mensagem. Nunca devemos terminar uma matéria com algo ruim. Esperança.
Temos que dar esperança para o telespectador.
Não consigo escrever o final.
Nem sei que final essa história merece ter.
Não sinto raiva de ninguém.
Só estou tentando entender e pedir um pouco de tempo.
Cheguem com calma, por favor.
Tenho medo de pessoas.
Porque delas me alimento.
E poque elas podem me matar de fome.
Uma noite limpa. Sem que nada tivesse sido escrito nela antes.
E a partir daí sair rabiscando minhas impressões nessa misteriosa teia de observações.
Com tanto medo. E ao mesmo tempo, sem medo de aparecer. E enquanto rabisco meus traços tortos e rudimentares vejo o que é tão claro.
Aquilo que é sempre escondido.
Escondidinho.
Não nasci para aqueles que apontam. Infelizmente. Não nasci para aqueles que me tocam com suas mãos frias e suadas de medo.
Às vezes acho que ainda não nasci. Quando penso que estou voltando é quando mais caminho adiante. E seguir em frente dá um medo. E esse medo vai estar comigo pra sempre.
Medo bobo de criança...
de jovem...
de adulto.
É como esquecer de pagar uma conta que venceu. Ela te persegue. Você acorda no meio da noite e lembra que deixou de pagar a conta. Perde o sono. É tarde demais.
E de repente somos perseguidos. E damos voltas. Piruetas para despistar o destino. Destino?
Sera?
Não.
Ninguém despista o destino. A gente enrola a vida. E enrolar é comigo mesmo. É uma delícia. Dá um prazer dizer mais do que o necessário. Perder tempo, linhas, toques e palavras. Esbanjar sentidos e significados. Enquanto o objetivo final está ali. Estirado a nossa frente.
Existem dias em que os dias parecem os últimos. E depois deles não haverá nenhum outro. E quando isso acontece a gente deixa de ser humano. Passa a ser animal. Irracional. E come o alimento do outro. Arranca a comida do próximo. Sem dó. Precisamos sobreviver. E quando me roubam a comida... aquela que pedi com cuidado. Ou plantei com esmero. Eu apenas olho.
Olho.
Vejo a minha comida ir embora. Arrancada de minhas mãos. Fico complacente com os outros pobres ao meu redor.
Mas qual o limite da complacência?
Até que eu morra de fome?
Fraco?
Ou até que eu grite de raiva. Mesmo com a sensação de que ninguém irá me ouvir. Em alguns momentos consigo ver que os que me roubam sentem muito mais fome que eu. Estão muito mais esfomeados do que eu. São famintos e por isso me agridem. Assim como eu o faria.
E me impressiona como os famintos parecem fortes.
Me encanta a força que o instinto de sobrevivência imprime nas pessoas.
Pensei agora há pouco o que teria sido de mim se estivesse no Haiti. Sobrevivente do terremoto. Sem família, sem casa, sem comida. Vejo aquelas pessoas se amontoarem em filas, em conglomerados de pedintes, animais racionais irracionalmente enfileirados. Em busca de comida. E quando uma caixa aparece eles a disputam com tanta força. E aqui, sentado na minha cozinha, tenho a certeza que sentaria no chão e me arrependeria de estar vivo. E a tristeza toma conta de mim quando a constatação é simples. Fraco demais para uma luta.
Por favor, enviem mais comida aos desabrigados.
Não os obriguem a brigar entre si.
Ou deixar a irracionalidade ser a única saída racional.
Me lembro de um dia que estava sentado na calçada, na parada de ônibus, 12, 13 anos. Fui ameaçado por dois meninos mais velhos. Queriam me bater. Aquelas coisas de adolescência. Eu reagi – com tanto medo – e os mandei à merda. Eles voltaram e me bateram tanto. Na frente de todos que estavam naquela parada de ônibus.
Acho que naquele dia decidi que era mais seguro não enfrentar as pessoas.
Deixa... que uma hora elas vão cansar e vão embora.
É incrível como essa decisão virou regra na minha vida. E hoje, sentado na minha casa, ainda tento me despedir desses meninos. Acho que já chega. Vocês não fizeram por mal. Mas, agora preciso ir. Tento me desfazer da vergonha de apanhar em público e agir como se nada tivesse acontecido.
Tanto tempo depois ainda escolho os mesmos meninos para sentarem ao meu lado. Está na hora de mudar de acento.
Na minha profissão aprendi que os finais dos textos devem ser positivos. Pra cima. Devem levar uma mensagem. Nunca devemos terminar uma matéria com algo ruim. Esperança.
Temos que dar esperança para o telespectador.
Não consigo escrever o final.
Nem sei que final essa história merece ter.
Não sinto raiva de ninguém.
Só estou tentando entender e pedir um pouco de tempo.
Cheguem com calma, por favor.
Tenho medo de pessoas.
Porque delas me alimento.
E poque elas podem me matar de fome.
20 janeiro 2010
13 janeiro 2010
Teoria do Vaso de Cristal.

Só existem dois vasos de cristal no mundo. Não existem mais exemplares.
São raros.
Transparentes e perfeitos.
Em algumas ocasiões o primeiro vaso se quebra.
Por acidente. Por descuido.
Por bobagem. Por ódio.
Raiva ou desespero.
Fica partido em milhões de pedaços.
Miúdos.
No chão a espera de serem recolhidos.
Quase sempre não são recolhidos. Passam o resto da vida espalhados no chão.
Cacos espalhados no chão.
Cortam pessoas que nada têm a ver com a história.
Correm para debaixo do tapete.
Viram farpas.
Infeccionam entre os dedos.
Até o corpo expulsá-los naturalmente.
Um belo dia você acorda - e isso não acontece na vida de todos - apenas na vida de alguns.
Porque fizeram por merecer.
Ou porque não fizeram nada.
Ou porque precisavam de alguma coisa.
Simplesmente acontece.

E o vaso está lá. De volta sobre a mesa.
Lindo.
Limpo.
Mais transparente do que nunca.
Parece inacreditável. E é inacreditável.
Você chora de alegria. De esperança.
E aí se dá conta que ele não é o original. Não é o primeiro vaso.
E sim, a sua segunda versão. Aquela última versão.
A única. Depois dele não haverá mais vasos como este sobre a mesa.
Você vai ficar paralisado.
Por um instante o desespero vai tomar conta de você.
O medo irá tomar conta do seu corpo.
O que fazer para que um objeto tão importante não se quebre novamente?
Se guardar ele poderá quebrar.
Se deixar exposto ele poderá quebrar.
E ele não pode quebrar. Não haverá mais chances. Essa é a única oportunidade.
Provavelmente você irá perder boas noites de sono. Apenas pensando em como proteger o vaso das intempéries do mundo. Das suas intempéries.
E provavelmente vai descobrir que não há saída.
O vaso continuará sobre a mesa. Sendo admirado por todos e por tudo. Correndo os mesmos riscos. A solução não está em escondê-lo do mundo. Em imortalizá-lo numa redoma de vidro. Lembre-se: por mais parecido que possa ser... este é outro vaso.
E você não tem controle sobre a sua resistência. Assim como não tinha sobre sua primeira versão. Você vai perceber, com o tempo, que a única coisa a fazer é admirá-lo. Agradecer ao universo pela oportunidade de ter algo tão bonito mais uma vez.
E aos poucos descobrir os seus limites.
O seu...
O do vaso...
A distância da mesa...
Quantas cadeiras cabem ao seu redor.
Que tipo de flores colocar.
Se é que este é um vaso para flores.
12 janeiro 2010
Fragmentos de frango à passarinho
NA CHUVA...
NUM BAR...
NA AVENIDA PAULISTA...
QUE RUA É ESSA MESMO?
Sentados à mesa de um bar. Cerveja gelada. Fim de semana de folga. A conversa rola solta. Mais um copo e aí é inevitável. Todos se transformam em filósofos de plantão. Platões de folga do plantão. E não é que a gente resolveu anotar algumas dessas preciosidades! Todos os dados foram produzidos por mim com o apoio incondicional da Tereza Belezura.
Já vou dizendo que não entrarei em detalhes. Não haverá explicações sobre os escritos. A idéia é deixar vocês pensarem sobre...
Devaneiem meus amigos.
Devaneiem.
Com ou sem uma cerveja.
Idéias sempre vão e vem.
Então vamos lá:
Teoria 01
O PODER DA ESCOVA DE DENTES.
Uma (01) pode destruir uma relação, definitivamente. Quando de uma (01)... passa a ser duas. E, pior, quando entre duas (02) aparece uma terceira. Mais branca, mais macia e com aquelas malditas cerdas ajustáveis. Definitivamente uma escova de dentes pode destruir uma relação. Quando a boca se cala. E de lá de dentro não sai mais nada. Absolutamente nada. Nem som, nem cheiro, nem bafo. Uma escova pode ter o poder de uma espada de Jedi. Fere. Separa. Limpa o lado negro da força. O lado negro da boca.
Teoria 02
A pergunta era: PORQUE CONVERSAMOS TANTO QUANDO CONHECEMOS ALGUÉM NOVO? E DEPOIS, COM O PASSAR DO TEMPO, OS ASSUNTOS DIMINUEM?
A reposta foi: A CONVERSA VEM ANTES DA CONVIVÊNCIA. ALGUMAS PESSOAS SEDUZEM COM O PEITO. OUTRAS COM O PODER DA LÍNGUA.
Teoria 03
Nem sempre você precisa estar por cima para fazer uma pessoa feliz. Você pode estar por baixo.
Teoria 04
A CABANINHA DE FRITZ
Um lugar mágico. Alguma coisa do subconsciente. Você acha que as coisas vão ser do jeito que a gente acha. Mas isso acontece só dentro da cabaninha de Fritz. Fora, a paulada come, meu! Aí que você tem que por o pau na mesa.
Se quiserem podem deixar as suas teorias nos depoimentos.
E não se esqueçam de levar caneta e papel para a mesa do bar.
Vou continuar anotando pérolas de nossas conversas para dividir com vocês. Que, provavelmente serão as pessoas que vão produzir as pérolas...
Até a próxima... (rodada)
09 janeiro 2010
Homenagem ao perdão.
Agora entendo que a dor nem sempre é necessária para perdoar.
O perdão precisa de um pouco de paz.
Ele só acontece quando a gente está em paz.
E quando isso acontece, o perdão chega e toma o seu lugar.
E a vida segue o seu caminho.
Sem longas discussões. Porque o perdão pede frases curtas. O perdão é objetivo.
Claro demais para se deixar levar por elucubrações.
Perdoar é simples.
Mas precisa de tempo.
“Só não demore quanto ao tempo pra chegar.”
O perdão é a chave para uma nova caminhada.
Iguais a tantas outras. Mas leve porque estamos em paz.
06 janeiro 2010
MÚSICA DE ANO NOVO
A Place to Remind
Rodrigo Del Arc
(Composição: Rodrigo Del Arc / Nick Gutierrez / Edu Maranhão)
We are a new ideia, we are a brand new start,
We are a billion people, our heart beat as one
We are the ones that caused it, We are the ones that cry
We are a drink of water, the holy drink of wine
We are the ones that did it, we are the ones we blame
We are the ones we've given, we are the ones we take.
We are the ones we wanted, we are the ones we've lost,
We are the ones we like, we are the ones we don't
Open your eyes face to the sky
You might just find a place to remind
You that
We are the newest vision, we are a brand new start
We are the deepest secret lost in mysterious heart
We are a single phrase, we are that same old song,
We are what we fight for, if we are right or wrong.
We are under the sun, we shine inside the light
We are the darkest night, the quietness of the stars,
We are our own deception, we are what we believe,
We are the one who's thinking, we are what we want
Open your eyes face to the sky
You might just find a place to remind
There's something inside you,
The same thing inside me
In silence i cry, the world is one.
We are a new ideia, we are a brand new start
We are a billion people, tomorrow is up to us
We are the new inventions, we are the air we breathe,
We are what we think, we are who we want
We are a single voice, we are in everyone
We are famous dreamers, we are unknow stars
We are our own free will, we are our only choice,
We are the ones we like, We are the ones we like...
We shine inside the light...
21 dezembro 2009
Fim de semana na caverna...
As mudanças climáticas chegaram à minha casa e me trouxeram de presente um resfriado. Daqueles que o corpo fica mole o nariz parece mais um chafariz. A garganta fica irritada e o peito chiando.
Meu fim de semana praticamente se resumiu em abraçar o travesseiro, consumir lenços e lenços de papel, aprender a tomar chá de hortelã e dormir...
Aí eu passei vick vaporub e melhorei...
E não é que no domingo à tarde cheguei a conclusão de que foi um ótimo fim de semana.
Meu corpo mais uma vez, me deu uma lição. Era hora de parar um pouco. Limpar a casa e curtir o meu espaço. Levantei, tomei um banho quente e fiz um belo almoço de domingo. Taça de vinho branco. Pasta com molho de cogumelos e um pouco de samba. Depois de tudo o sofá foi testemunha da minha preguiça. O dia estava lindo. Mas a minha casa estava mais linda ainda.
Foi uma delícia.
17 dezembro 2009
O SEGREDO DE NÁ OZZETTI
Terça-feira foi dia de amigo secreto entre os colegas "do serviço". Nunca fui muito de amigo secreto. Me lembrava uma fase ruim da infância. Sem muito dinheiro, o presente de amigo secreto - quando eu participava do amigo secreto - era sempre algo que eu não queria dar de presente. Era o que o dinheiro dava para dar de presente. Com o tempo acabei deixando esse "regalo" de fim de ano de lado. E as lembranças ficaram guardadas com ele. Este ano um sapatinho de papai Noel recheado de nominhos misteriosos apareceu na minha frente. Foi um ato quase sem pensar. Sorteei minha sorte de participar desse misterioso evento.
Tivemos pouco tempo para descobrir os desejos secretos do amigo misterioso. Decidi optar pela intuição. Afinal, queria deixar minha secreta amiga bem feliz. Não percebi e quando vi deixei para comprar o presente na última hora. Mas foi bem escolhido.
Banho tomado, roupa limpa... Barba aparada, sacola nas mãos. Estava pronto para o evento. Muito barulho. Muita gente. E a euforia de descobrir os segredos dos secretos amigos. Um a um eles foram se revelando. Entre gritos e papéis de presente eles iam se revelando. E um pouco dos seus mistérios também. Minha vez chegou... Revelei e como sempre fui revelado. Fui amigo, mas me mantive secreto. Muito barulho para revelar todos os mistérios daquela noite.
Fui surpreendido por um presente especialmente preparado para mim. Daquele que só os criativos conseguem elaborar. Um mimo delicioso.
Voltei pra casa com uma caixa de presente contendo doze latinhas de Bohemia e um CD da Ná Ozzetti. As latinhas estão na geladeira. O Cd não sai do aparelho de som... E meus segredos se acalmaram depois do amigo secreto deste 2009.
09 dezembro 2009
UMA MÚSICA PARA A HISTÓRIA...
Dia 31 de dezembro completa 10 anos que conheci o casal mais fofo do mundo. Marcos Simão e Adriana Adrix. Foi no Reveillon de 1999. Quando a gente achava que tudo poderia mudar. A festa durou três dias. Preparativos - Evento - E ressaca. Simão partiu antes do nosso aniversário. Mas essa música vai ser especial para sempre. A mais tocada naquele reveillon especial... E imortalizada em quase todos os nossos encontros seguintes...
UM NOVO COMEÇAR...

Acordei com a morte no meu telefone.
No começo não consegui reconhecer o seu tom de voz.
Mas ela foi implacável. Fria.
E me levou um pedacinho da minha história. O susto foi tão grande.
Daqueles que a gente nunca sabe a hora exata que vai acontecer. Parece que a morte fica a espreita do destino. E quando a gente menos percebe ela te abocanha. De salto. De susto.
Hoje ela pulou na minha frente.
Vestida de branco.
Nada ameaçadora.
Como um morador de rua que se joga em cima da gente no centro da cidade.
Me derrubou no chão.
Arrancou a minha mochila.
Vasculhou e tirou um amigo lá de dentro.
E foi embora. Me deixando jogado na calçada.
Sacola aberta.
Vasculhada.
Sem permissão.
A morte é um assalto.
Chega de assalto.
E age com uma violência branda. E leva aquilo que não poderia ser levado nunca.
Hoje a dona morte me levou um grande amigo. Não posso reclamar dela. Ela tem sido gentil comigo. Tem me dado tempo para aprender a despedir das pessoas.
Me deu tempo de despedir do Simão.
Mas não de aprender... apreender a sua história.
Daquelas histórias longas que a gente nem percebe que passou. Só vai ficando longa. Rica demais. E hoje a morte me tomou ele. E me deixou na Consolação tão desconsolado.
O Simão lutava contra um câncer havia dois anos. Foi forte demais para essa briga. Mas de força ele entendia muito bem. Sempre foi guerreiro. Um belo guerreiro. Corpo de lutador e alma de mestre. Tão sensível que chegava a doer.
A incomodar.
Por várias vezes deixei ele pra trás por não aguentar tanta serenidade.
E hoje a minha dose de serenidade foi arrancada da minha mochila.
Da minha vida.
Nesses dois anos consegui rever o Simão algumas vezes. Ele em Goiânia e eu aqui em São Paulo. A distância fez a nossa relação crescer de forma especial. De certa forma a gente aprendeu a se cuidar em silêncio. Acho que ele até mais do que eu.
No nosso último encontro.
Em Goiânia.
O Simão já apresentava as marcas dessa guerra injusta contra um inimigo implacável.
Mais uma vez estava sereno demais. Queria que tivesse gritado. Tomado um porre junto comigo. Mas estava sereno demais.
Passou a noite sentado na cadeira de ferro.
Cordas verdes.
Moleton largo. Olhos grandes e fundos. Opacos demais para quem adorava a vida.
Sob a parreira, cheia de folhas verdes, passamos boa parte da noite. Ele, em silêncio, ouvindo apenas os amigos contarem as suas histórias.
Eu estava de férias.
Contei minhas maluquices na esperança que ele entendesse que valia a pena lutar para ter um pouco mais de vida.
Um sopro que fosse.
Na despedida ele me abraçou...
Devagar.
Fraco.
E saiu caminhando lento rumo ao portão. A sacola à tira colo, parecia enorme naquele corpo franzino.
Minha última recordação do Simão é ele caminhando em direção ao portão.
Mãos dadas com a Adriana.
Um caminho longo.
Um portão de ferro antigo.
Uma árvore com flores vermelhas.
Ele foi embora porque queria ter uma noite de sono em casa, depois de tanto tempo no hospital. Voltei pra minha casa com a sensação de que aquela poderia ser a última imagem de alguém que havia se tornado tão especial pra mim.
E hoje o medo daquela noite se tornou real.
Não verei mais o meu amigo de tantos anos.
Me resta sentar na pequena mesa da cozinha, vidro trincado. Copo de chá gelado... Roupa suja na área de serviço... E escrever memórias emocionadas de um trecho de nossas vidas.
Trecho que tem hora certa para acabar.
Sete horas da noite será o enterro.
Mais um guerreiro se vai. Assim como tantos outros.
E eu, sozinho na Consolação com aquela estranha sensação de perda.
Não há como ligar para operadora e pedir um novo Simão.
Trocar nossos endereços.
Cancelar o cartão que foi roubado.
Esse assalto foi pra valer.
Estou sentado na Consolação. Ouvindo a vida passar. E sentindo a vida me deixar.
As mãos frias da morte vasculharam meu bolso hoje de manhã. E levaram pertences de valor inestimável. Guardados com tanto carinho.
Não consigo lembrar se me despedi dele como gostaria de ter feito.
Não me lembro se disse tudo aquilo que gostaria ter dito.
Só me lembro que há um ano, mais ou menos, quando o Simão terminou a primeira fase do tratamento, ele esteve em São Paulo.
Eu estava passando por uma fase ruim.
Mudei de casa.
Minha vida estava em plena transformação.
A dele também...
Passamos horas deitados na cama do hotel (eu, Simão e Adriana). Rimos da vida. Da minha desgraça. Criamos um mundo: a Sofrelândia... Eu morava lá. E o Simão queria que eu me mudasse urgentemente.
Saia já da sofrelândia, seu sofridinho, dizia ele.
Naquele dia, ele voltou a sentir dores no peito.
Estava arrumando as malas pra voltar pra casa.
Na despedida, me abraçou, me entregou um cartão e disse:
“Juninho, ganhei isso de uma grande amiga. Assim que iniciei o tratamento contra o linfoma. Me ajudou muito. Eu já aprendi a lição. Agora quero que você aprenda essa lição também.”
Me entregou o cartão.
Nos abraçamos.
Chorei e não quis me despedir.
Hoje, mexendo em minhas coisas. Na pasta onde guardo os documentos do novo apartamento. Olhos molhados de lágrimas, achei o presente que ele me deu.
Um pequeno cartão.
Limpei o rosto.
Contive os soluços e pude ler o recado que ele me deixou:
“FAÇA DE TUDO PARA LEVAR FELICIDADE ÀS OUTRAS PESSOAS E PRINCIPALMENTE LEVAR A FELICIDADE A VOCÊ MESMO.”
Obrigado Simão.
Descanse em paz.
Maria no quartel
Isso foi um sonho, mas bem poderia ser real. Qualquer semelhança com personagens e fatos reais terá sido completamente proposital.
Era uma longa fila... Uma longa fila de jovens. O cenário... Um quartel do exército. Jovens numa espécie de alistamento. Cada um carregando apenas as suas expectativas. E medos também. Um a um o uniforme era entregue. Em seguida se formava uma imensa fila verde. Estavam prontos para o seu destino. Minha hora se aproximava. Era a minha vez de pegar o amontoado de tecido verde musgo e selar para sempre o meu destino. Não tenho a mínima idéia para onde iria e nem de onde havia saído tantos voluntários. Mas, definitivamente estava numa fila e ela, obviamente me levava para algum lugar. Sabe lá Deus para onde. Finalmente o tecido verde encontrou meus braços. Pesado demais para ser vestido de uma vez só. Armadura disfarçada de uniforme. Minha primeira reação. Dar uma olhada no tamanho. “P”. Não me contive.
“P” é pequeno demais pra mim, senhor!
Não me diga, disse o cara que parecia comandar a fila. Apenas parecia. Em sonhos não podemos confiar muito nos personagens.
Acho que preciso de algo maior, senhor.
Então, fala direito, disse abrindo um sorriso no canto do lábio rodeado por uma barba bem feita.
Como assim?
Fala mais rápido! Que preguiça é essa?
Eu só quero um uniforme maior, senhor! Disse, tentando acelerar as palavras. E não desafinar na frente do pelotão.
Acho que não funcionou. Não me lembro se ganhei ou não o uniforme em tamanho maior. Não importa. Sonhos são assim. As histórias não precisam ter muito sentido.
Segui em frente naquela fila. Estranha demais para tentar encontrar explicações. No meio do caminho topo com uma equipe da TV Globo. Isso mesmo. O pessoal do Jornal Hoje estava no quartel prestes a fazer uma exclusiva. Adivinhem quem estava no quartel?
Não sei.
Uma espécie de colunista cultural. Um produtor e o cara com a câmera, mais conhecido como repórter cinematográfico – é, o cinegrafista. No sonho eles me reconheceram. E eu fiquei feliz. Conversamos por um tempo. Eu, segurando o uniforme. E eles se preparando para a entrevista.
- O que que vocês fazem aqui? Perguntei meio constrangido.
Vamos fazer uma entrevista exclusiva, responderam com aquele sorriso que só tem os que chegam em primeiro lugar.
Quem poderia ser? A tal personalidade dentro do quartel?
Quer participar da entrevista? Peguntaram.
Hã!
Hein!
Como assim?
É, precisamos de alguém para tirar umas fotos da equipe, disseram, com cara de quem entrega o maior pirulito para a criança carente.
É claro que sim. Eu topo demais, disse.
Não me lembro mais onde foi parar o uniforme. Ele simplesmente desapareceu. Sonhos são bons porque não precisam de lógica nem continuidade.
Deixamos a longa fila verde para trás e seguimos para o cenário da entrevista. E lá, aos poucos foi surgindo a entrevistada.
Sentada languidamente em uma grande cadeira.
Roupa branca, bem larga.
Cabelos pretos. Longos... Bagunçados...
Pés descalços...
No quartel? Como poderia ser?
Definitivamente eu estava frente a frente com a Maria Betânia. É gente, a Maria Betânia estava no quartel.
Me olhou, ou melhor, deve ter olhado para toda a equipe, mas como o sonho era meu ela olhou primeiro pra mim. Me (nos) cumprimentou. Mantivemos uma relação por alguns instantes. Tirei algumas fotos. Muito reais para mim.
Cada enquadramento.
Cada personagem da foto.
Eu estava ao lado da Maria Betânia. E não podia tirar nenhuma foto minha com ela. Que agonia.
Todo sonho tem uma agonia. A minha era a farda verde tamanho “P” e não poder estar na foto.
Não me perguntem sobre a entrevista. Não prestei atenção. Mas sei de todos os detalhes daquele rosto. Da máquina fotográfica e dos ângulos que escolhi.
Enfim, a entrevista terminou. Deve ter sido como todas as entrevistas especias que a gente está acostumado a assistir. Mas uma coisa foi especial. A despedida.
Na saída, Maria Betânia, pegou na minha mão. E, por um instante ela não quis soltar. Ela gostou de mim. Eu puxei, naquele instinto de: me larga! Mas era a Betânia segurando a minha mão. Rolou um slow na cena. Um pouco de emoção.
Me lembro que acordei... procurando a máquina fotográfica pra ver as fotos. Voltei a dormir. Voltei a sonhar... Dei algumas explicações para o soldado chefe... E acordei. Às oito da manhã. Não consegui mais dormir.
Como todo sonho tem uma moral, fiquei pensando.
Cheguei a uma conclusão:
Preciso diminuir a cerveja.
E ouvir mais Maria Betânia.
Um pouco de história.
Estar de férias entre família é sempre engraçado. Família é uma instituição engraçada. Isso não é novidade. É a melhor maneira de entender um pouco mais como funcionamos. E releituras são sempre bem vindas. E o bom das releituras é que sempre podemos fazer coisas diferentes. Os cenários mudam com tempo assim como nós também mudamos. E ganham mais cor com o tempo. Ficam mais alegres ou mais serenos. É o tempo agindo sobre a nossa história. Mas a cerveja continua sempre a mesma. Meu pai desenvolveu a teoria das letras. No fundo da latinha existem duas letras. É a origem da água que faz parte da cerveja. E, dependendo das letras, o gosto muda... Estamos apaixonados pela J A , se for C E também é boa. Mas J C não é nada nada boa.
O sol está de matar. Ou melhor, de queimar. Meu braço esquerdo que o diga. Queimei feio durante a viagem até Caldas Novas. De volta das férias vou levar por um tempo, a lembrança dessa gostosa viagem. Sacola térmica com cerveja gelada. Tira gosto dentro do carro. Música da boa. E vento no rosto. Quase uma farofada sobre quatro rodas. Estar o tempo todo com a família tem os momento chatos. Aqueles momento em que somos tão parecidos que precisamos nos abortar. Sair sozinhos parecendo que somos únicos no mundo. Mas não somos. Temos cópias exatas ou muito parecidas de nós perambulando por aí. Com algumas coisas diferentes. Eu me tornei o integrante tecnológico da família. Tiros as fotos e depois copio para todos. E aproveito para deixar algumas aqui no blog. Depois vejo o que faço com o restante das fotos. Mas vão focar guardadas para a etérea eternidade. Neste exato momento acabamos de almoçar. Estamos no apartamento. Foram todos tirar aquele cochilo... Não consigo. O sol do cerrado me mantém em alerta. E a Bohemia J A está estupidamente gelada. Resolvi compartilhar com vocês um pouco do meu tempo. As informações não param de chegar. São várias. Mais até do que consigo publicar. Volto pra casa cheio de informações. E cheio de novidades. A internet está mega lenta. E de mega não tem nada. Mas se esta postagem foi publicada é porque eu consegui. Agora vou abrir mais uma e deixar vocês com mais uma ou duas fotos. Ah, tenho duas novas teorias. Ainda irei escrever sobre. Espero um pouco mais de inspiração. Mas elas não param de fervilhar na minha cabeça. E não se esqueçam: Eu sou uma estrela...!!!!!
Hoje é sábado?
Pousamos no Aeroporto Santa Genoveva... (Aeroporto Internacional de Goiânia – Santa Genoveva). Eu e meus trinta e quatro anos de saudade. Temperatura aproximada de 24 graus e subindo. O suor brotando na testa. As lembranças brotando na alma. Caminhamos até o desembarque. O funcionário da infraero enfia a cabeça pela esteira e grita:
Ô pessoal de São Paulo! As malas vão sair pela esteira de número três! Aquela alí ó!
Definitivamente eu estava em Goiânia.
No saguão aquela receptividade de sempre. Cartaz de boas vindas e abraços emocionados. Tão calorosos como o dia nublado... E suado. Suor é uma coisa que a gente logo relembra.
As férias estavam apenas começando.
E começaram bem...
Chegamos em casa. Cerveja gelada na geladeira. Cama arrumada. Presente sobre a cama. Carinho de graça. Vinte e quatro horas por dia.
É só o começo.
E não paro de gritar: Pai... Vem aqui. Mãe... Onde está? Gente vem aqui. Senta aqui. Pai abre mais uma... Mãe... Este feijão está uma delícia... Ainda não me acostumei com o silêncio do Atheneu. Ainda deito e me lembro da casa da luz vermelha e seus sons. Mas é apenas o começo.
01 pijama e uma bolsa...
O que eu tenho que te dar é muito mais do que isso. Hoje lavei o pijama e resgatei a bolsa do banco de trás do carro. Mas isso nem precisava ser entregue. É pouco demais... Dois Cds, uma calça e um pijama... Não. Não é isso que precisa ser entregue. Vamos rasgar nossas caras. Nosso peito. E lá no fundo, talvez, a gente ache o que realmente precisamos ter de volta. Ou não queremos mais ter de volta. Presentes são bem vindos nessa hora... Lembranças... Pra gente não esquecer do que a gente foi capaz. E as lembranças se misturam. As despedidas são sempre iguais... Coisas de um lugar temporariamente instaladas em outro endereço... O que muda? A quantidade de coisas deslocadas... de endereço. A dificuldade de movê-las e a resistência em tirá-las do lugar. Não vou devolver boa parte do que peguei de você... São coisas que me fizeram muito bem. Não vou devolver porque não é preciso. Nessa hora nada é preciso. Precisamos de piuca coisa. Um pouco de cerveja para enganar o tempo real. E me entregar a um tempo qualquer... Aprender as dores dos fragmentos da realidade. E saber dar de cara com eles e me sustentar. Em pé diante da situação... Ou da oposição. Rever histórias comuns e ver que pessoas são capazes de seguir seus caminhos traçados com agilidade voraz...
Voraz...
Voracidade...
E a emoção se vai...
Meu texto fica frio. Assim como eu. Frio. Cheio de vida e de compreensão. A frieza é o excesso de compreensão. Odeio escrever textos frios.
Estou longe neste momento.
E talvez um dia esteja mais próximo de coisas simples. Como eu sempre gostei.
Preciso de um pouco de silêncio.
Só preciso. De alguma resposta.
Nessas horas as respostas precisam surgir bem à nossa frente. Caso contrário serão ignoradas solenemente. Como ignoro o meu sono, a minha vontade, a minha dor... a minha vida... Eu.
Meus cabelos cresceram... Caíram na pia do banheiro. Estou habitando o ralo.
Ontem choveu... e tomei um banho de chuva. Como quando era criança... E me lavei... Da Augusta à Consolação. Me lavei da Augusta à Consolação. E cheguei em casa tão desconsolado. Minhas lágrimas foram embora com a chuva... Meu texto está sem vida... Seco demais para ser digno de ser escrito... Áspero demais para pertencer a mim. Que sempre tentei ser tão suave. As coisas estão ásperas demais.
Seco... Como o meu copo...
Como o meu corpo... Meu espírito. Esvaído. Consumido. Silenciado.
Agora... Lento.
Mais lento.
Era para ser uma dedicatória...
Virou lamento.
Como tantos lamentos.
Um pouco de silêncio.
A difícil escolha de escrever sobre a saudade.
Em casa... Depois de uma noite agradável. Cinema, pipocas, boa companhia. Cerveja gelada ao lado do computador. Estamos alimentados. Mas o corpo sente falta de algo. Antes de dormir me deparo com o vazio. Falta um cheiro. O incenso não é suficiente para me fazer dormir. Me falta o cheiro da cumplicidade de todas as noites. Da inspiração de todos os dias. Da expiração. Me resta a difícil escolha de falar sobre a saudade. É como se tivessem me tirado algo muito importante. Na verdade me tiraram. Sabe quando falta aquela frase incrível que define absolutamente tudo o que sentimos? Essa é a diferença entre grande e medíocres escritores. O poder do resumo de grandes pensamentos. Não consigo resumir a saudade. Talvez porque a saudade seja algo que nunca se possa resumir porque está carregada de muitas histórias. E, de tão importantes, essas histórias não permitem que sejam resumidas. Eu não permito que elas sejam resumidas. Mais um gole de cerveja... Gelada... Mas a alma ainda está quente. Estamos condenados a saudade. Saudade da infância, daquelas loucuras da adolescência quando acreditávamos que podíamos tudo e um pouco mais. Saudades dos velhos e bons amigos que se perderam ao longo da nossa caminhada. Saudades dos parentes. Saudades do meu avô que foi embora tão cedo e me deixou tantas lembranças... Saudade do Chil... Nome estranho de um grande amigo que hoje nem sequer lembra de quantas vezes discutimos a importância de Platão nas nossas vidas. Saudade seria um vazio? Aquele vazio que temos a certeza que não será mais preenchido nunca mais. Não daquele jeito. Não daquela forma. Saudade é a irmã boa do passado e a irmã má do futuro? Será? Estou sentindo saudades. De tempos que não voltam mais. Não porque não existem mais, mas porque se foram. Não estão mais conosco. E isso dá saudade. Saudade de quando sentava no canto do pátio do San Damiano. Ficava ao longe assistindo o recreio. E tudo parecia que nunca passaria daquelas grades. Depois passei a freqüentar as muretas da escola. Uma grande promoção para o mais mais tímido e reprimido da turma. A mureta continua no mesmo lugar. Mas mesmo que fosse tele transportado para lá não mataria a saudade daquele tempo. A saudade está na distância das coisas que foram feitas e não feitas. Ditas e não ditas... Sentidas e não sentidas. O gole de hoje nunca mais será o mesmo... É o único. Sempre será o único. E isso não é novo. Não há aqui nenhuma constatação brilhante da natureza. Apenas um lamento de saudade. A saudade dói às vezes. É como um sapato apertado. Sempre diz que está lá. E quando a gente insiste em continuar em frente aumenta a cada passo. Até que a gente parar e afrouxar o cadarço. Às vezes sem sucesso. Mas ganhamos um minuto de alívio. Até comprar um sapato novo. Mas sapatos novos também apertam. E eu adoro meus sapatos velhos. São sempre os mais confortáveis. Macios... Acolhedores... Carinhosos com os meus pés... Eu sempre gostei dos meus sapatos velhos... Estavam comigo ao longo da caminhada. Sinto saudade deles. Lembro de um tênis de escola. Não tirava-o dos pés... Até que descolou... Impossível reformá-lo. Bem que tentamos. Mas impossível reformá-lo. A saudade também é como um tênis velho e deformado. Impossível de reformá-la. Se foi e pronto. Precisamos nos conformar. A morte nos trás saudade. E sempre vai trazer. Precisamos nos conformar. Os mortos vivos também nos trazem saudades. E estes são os piores porque não se foram de verdade. Estão por aí respirando o mesmo ar que a gente. O mesmo ar que eu. E agora respiro fundo. Sinto o mesmo ar que você nesse momento. E me sinto próximo. Um pouco mais feliz. Um pouco menos triste. Um pouco menos só. A saudade ocupa a vida dos solitários. Que não sabem como ocupar o tempo que sobra. É uma reunião de passados... Que insistem em fazer parte do presente. É uma festa à fantasia... Uma deliciosa festa à fantasia... Que passa da hora de acabar. E fica chata. Mais um gole. Mais uma música. Alimento bem a minha saudade. Não preciso das fotos antigas. As principais estão aqui na minha mente. A saudade é um grande álbum de fotografias. Em movimento constante. Forma de exibição aleatória. Fora do nosso controle. Sem meias palavras. Viva os saudosos. Eles são felizes porque desistiram de lutar contra essa praga. Eles têm a razão. Estou com saudades. Estou deformado pela saudade. Estou inspirado pela saudade. Tomado pela saudade. Tomando goles de saudade. A saudade embriaga se em excesso. E vicia se usada sem controle. Provoca um torpor incontrolável. Tem efeitos de soro da verdade. Soro da saudade. Estou pronto para dizer como estou movido pela saudade. Quase uma relação de desespero entre mim e a saudade. Meu pequeno apartamento vazio está cheio de saudade. Vou abrir a porta e deixá-los entrar. Vamos dar uma festa para comemorar a existência de todos vocês. Não! Melhor! Vamos comemorar a minha existência. Afinal de contas a saudade é minha. Eu sinto saudades de mim. Daquele menino tímido... Com medo de falar em público... Que acreditava que uma nave espacial o levaria de volta pra casa. Saudade da pureza (não a do Anísio, nem a em forma de grãos). Saudade de um tempo em que acreditava nas coisas. E as coisas acreditavam em mim. A primeira viagem de avião... O primeiro tomate cereja... Roubar balinhas nas Lojas Americanas (quando as balinhas eram vendidas por peso nas Lojas Americanas). Andar de escada rolante (quando a única escada rolante de Goiânia ficava nas Lojas Americanas). Saudade do limão com açúcar que o meu pai me dava depois de tomar a caipirinha... Saudades da mesinha de madeira vermelha... Pés de ferro. Hoje custa uma fortuna. Assim como a minha saudade disso tudo. Saudades do seu Euzébio, meu avô, que me deixou o seu Osmar, meu pai... Que me deixou o sobrenome Silvério, que me deixou um relógio... que não conta mais o tempo dos homens, porque está em outro tempo. Que me ensinou a chorar de verdade quando tinha apenas cinco anos. E quando me mostrou pela primeira vez o que era sentir saudades... Mal sabia eu, que a sentiria tantas outras vezes ao longo da vida. Foi uma boa lição. Saudade da simplicidade de Leopoldo de Bulhões... Nunca dei nada por aquele lugar. Hoje, sinto saudade de tantas coisas. O inocente banho de bacia no chão da cozinha. O medo do banheiro de buraco. O tanque de madeira... Todo coberto pelo lodo... Os pés de mandioca... O milharal... Ah, as pamonhas. Aquele medo terrível de que o meu pai, que ralava o milho, machucasse as mãos. Ralo entre as pernas... Movimentos certeiros. Gente reunida. O barulho do milho passando na lata... O caldo caindo na panela de ferro. A pamonha de doce... Saudades dos cheiros que senti ao longo da vida. E que insistem em aparecer nas horas mais inusitadas. Saudades da Tia Márcia. Que me ensinou a brincadeira do vivo ou morto. E que morreu antes de eu aprender o significado da morte. Saudade do Richardson... Meu primeiro “coleguinha”. Ele tinha uma pinta na testa. Nunca vou esquecer disso. Me ensinou a usar o primeiro computador. O dele. Porque o meu primeiro computador só viria quase vinte e cinco anos depois. Saudades da primeira Patrícia que entrou na minha vida. Evangélica, assistiu Dirty Dancing oito vezes. Era pobre de fazer dó. Mas tinha uma felicidade que só os evangélicos fervorosos conseguem ter. Hoje estou tomado de saudade ao ponto de querer chorar por isso tudo. Saudade de me sentir inteiro. Saudade apenas. Acho que é isso. A saudade é saudável. Nos coloca no eixo novamente. É como uma guia que nos diz o caminho a seguir. Nos faz um rápido relato do que fomos e do que queremos ser. E nos coloca no eixo. É isso. É o objetivo da saudade. Não nos deixar esquecer de quem somos de verdade. Daqueles que amamos de verdade... Dos realmente importantes pra gente. Para o bem ou para o mal. Saudade sem limites. Saudade é saudável. Saudade é saúde... É vida... É sina de vida...
Diário de Bordo nº 05052009
Hoje aterrizamos em um planeta bem diferente. Chamado de Centro de Goiânia. Não foi a primeira vez que passamos por este planetinha único. Mas é sempre uma experiência única ver como esse lugar se movimenta ao longo dos anos. Goiânia é uma cidade planejada por Atílio Correia Lima no final da década de trinta. A maioria dos prédios foi construída no estilo art decó. Prédios pequenos, pouco imponentes, mas de uma riqueza singular. Essas são as luminárias de um prédio do centro chamado Paternon Center. Quer mais?
Nesse passeio contei com a ajuda de uma guia bem experiente. Adrix fez questão de me mostrar alguns cantinhos bem interessantes. E aos poucos fomos descobrindo um pouquinho mais de Goiânia. Lugares novos e lugares não tão novos assim. Aqui Adriana, minha guia, e ao fundo a Avenida Goiás. Restaurada recentemente. E a principal avenida do Centro Histórico. Essa avenida liga o Centro Administrativo a Estação Ferroviária. No início Goiânia era só isso. Hoje tem mais um milhão e trezentos mil habitantes. E durante muito tempo eu fui um deles.
É bom andar por essa cidade. Fiz isso tantas vezes. Mas hoje tem um significado diferente. Ser turista na sua própria cidade. Redescobrir o seus movimentos particulares, as particularidades dos seus moradores, da sua gente. Lugares que foram e ainda são importantes para uma das capitais mais verdes do planeta. Desta vez não passamos por pontos turísticos. Queria absorver a cidade. Aquela que me acolheu durante vinte e nove anos de vida. Aquelas ruas estreitas, sujas, mal cuidadas, mas cheias de histórias. Estava definitivamente na minha cidade, no meu planetinha. Uma viagem no tempo. Jargões são sempre bem vindos para reforçar desabafos. Estar em Goiânia é conhecer um pouco da história do país que cresceu para o centro. É ver o ensaio do que acabou na Capital Federal, Brasília. Antes de Juscelino e o Distrito Federal, tivemos Pedro Ludovico e a transferência da capital da Cidade de Goiás para a planejada Goiânia. Tudo começou aqui. Com o tamanho que os Goianos poderiam dar. Com aquele tamanho caipira de quem já estava cansado de mandar seu ouro para outros estados. E por falar nisso, aí está ele: o Anhanguera. Na praça do Bandeirante. A praça não existe mais. Mas ainda é ponto de referência no centro da cidade. O Bandeirante está lá. Ganhou um pedestal e fica de olho no movimento. Símbolo do explorador, conquistador, usurpador... E hoje está no centro da Capital. Engraçado isso. Mas ajuda a explicar um pouco da nossa cultura de oprimido. Talvez por isso o que vem de fora, para nós sempre chamou mais a a tenção. Talvez por isso, muitos tiveram que sair daqui para depois voltar e ganhar um pouco de visibilidade. Quem vem da 'capitar' é sempre melhor.
Bobagem histórica. Mal sabem eles que esse lugar é cheio de delícias. Me alegro de conhecer pessoas que reconhecem o valor dessa terrinha. Desse planetinha perdido no planalto central. Seus cantores à moda de viola. Seus artistas estranhos e malucos, suas poetisas, suas casas antigas... Seus prazeres gastronômicos. Uma delícia. Uma homenagem.
https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgrNlOtFXecnTNfn7xG_tx_wPb8km-v0HLfubgJK4Be0FmPrvTF4JVvhxvhSoohddqhHgk3yLR1fy9UZEtsRoK_FrmSLfplbjfSpB8Yf0yOM0a3mkdrf7zTOv5jtARj0Js3-My2lgWxcAXz/s1600-h/alice+214.jpg
Sobre Bananas e Belezuras
É engraçado, mas alguns temas são difíceis de escrever. Sobre Bananas e Belezuras é uma tentativa. A primeira tentativa de uma série. Desde que cheguei a Goiânia tenho sido acompanhado por uma deliciosa criatura. E essa é uma homenagem. Às vezes quando estamos juntos parecemos duas pessoas normais... Por pouco tempo...
Belezura me acompanha nessa 'longa estrada da vida'. Uma relação estranha, mas interessante. Complexa demais para ser resumida num post. Em apenas um post. Já nos separamos algumas vezes. Separações mesmo. E depois voltamos a nos encontrar. E encontros são sempre bem vindos. Ela pisa na bola... Deixa de cumprir com alguns acordos, mas na hora 'h' está do meu lado. E aí tudo volta a ficar tranquilo. Belezura é uma referência. A quem eu faço uma deferência. A ela ensinei algumas coisas. Como o significado da palavra PROLIXO. E tantos outros significados. E ela me ensinou que vale à pena ensinar. E acabei aprendendo.
Belezura tem um olhar diferente sobre as coisas. Meio infantil, meio PETER PAN às avessas. Às vezes acho que ela não olha nada. Engata a primeira no seu gol quadrado e vai embora. Segue em disparada para a terra do nunca. Do nunca mais vou passar por isso novamente... Do nunca mais vão me fazer de idiota... Do nunca vou precisar me humilhar novamente... Do nunca vão conseguir me deixar triste...
É mas Belezura chora. E chorou algumas raras vezes comigo. E mais uma vez eu aprendi. Mas ela mais sorri do que chora. Apesar de às vezes eu achar que ela mais chora do que sorri. Seus delicados olhos grandes não deixam ela nos enganar. É difícil aprender a linguagem deles, mas quando se pega o jeito a coisa deslancha. Belezura é uma companheira. Das boas. Das grandes. Pra qualquer hora. Companheira de boteco. De cerveja, de neuras, de desabafos, de aventuras... E esse era um bom momento para uma pequena homenagem. Um dia escrevo mais.
Ah, porque Banana? Foi Belezura quem me mostrou pela primeira vez como eu era um BANANA na vida. Amadureci... E resolvei escrever sobre isso.
BA-NA-NAS-E-BE-LE-ZU-RAS
Oração de um bêbado...
Estou pronto...
Nunca estive tão pronto como agora.
Pode vir me buscar.
Venha me buscar...
Estou pronto...Perdoe-me pelo que não consegui beber até agora.
Pelas latinhas que congelaram no congelador.
Pelas cervejas que esquentaram no meu copo.
Não fui rápido demais para saciá-las.
E por isso não fui digno.
Estou pronto...
Pode vir me buscar...
Me leve...
De preferência para onde tenha uma boa música...
Uma boa 'vibe'...
Quanto àquela parte dos inimigos, estou tranquilo... arrume uma cadeira para eles também...
Longe de mim, de preferência.
Mas não os negarei o último gole...
Até o brinde...
Até que a morte nos separe...
Até que o celular nos desperte no dia seguinte.
Até que os nossos segredos mais íntimos sejam trocados por uma bem gelada.
Até que o soluço nos interrompa o discurso...
Até que que o desabafo...
Até que a conversa...
Até que o bafo...
E no fim, afaste de mim a ressaca.
A Neusa (dina).
E me mantenha pronto para a próxima...
Saúde...
Uma reta...
Dizem que o que liga dois pontos é uma reta. Taí. Somos uma reta.
Ela, a primeira de todas. Eu, o que escapuliu e veio por último.
Ela, a que sentiu na pele as agruras da vida. Eu, que senti as agruras como se fosse uma criança que não entende bem da vida.
Ela, uma inspiração. Eu, uma conexão.
Entre ela e o mundo.
Ela, minha irmã mais velha: Maria Antonieta... Nome imponente. Assim como ela. Uma leonina de fazer inveja.
Eu, um reflexo da reta que liga esses dois pontos. Um aquariano sem juba.
Ela, escreveu isso (leiam com atenção):
''Desconheço.
Ainda vejo o seu rosto
em todas as peles;
ainda busco teus olhos nos olhos alheios
algo não sai do meu pensamento
por quê?
Fixação tão intensa por quem não conheço.
Não me pertence? Obsessão ! paixão ! tédio !
Você é minha dieta, de paixão e gozo
te pego no vácuo.
Mil BJS....
Obs: Antonieta..
Eu, decidi publicar.
E fazer uma homenagem.
Beleza Roubada
Avenida Consolação. Dez horas da noite.
Entrei para as estatísticas da maior cidade da América Latina. Três homens me cercaram e anunciaram o assalto. Inacreditável que aquilo estivesse acontecendo comigo. Mais inacreditável foi a minha reação. Eu reagi. E fui contra tudo o que dizem sobre reação e assassinato. Eu simplesmente reagi. Segurei as mãos de um dos bandidos. Resisti a ordem para entregar tudo o que eu tinha. Gritei que não entregaria nada. Gritei e segurei as mãos dele que queriam me revistar. Não me lembro de muitos detalhes. Acho que é uma coisa comum quando somos pegos de surpresa. Me lembro que por alguns instantes pensei que estava cometendo uma loucura. Mas não conseguia fazer outra coisa. A não ser me defender e defender tudo o que eu tinha. Três homens mal vestidos, definitivamente principiantes na arte de roubar e de amedrontar as vítimas. Éramos todos principiantes.
Ali, no meio da Consolação tive minha primeira lição de violência numa cidade grande. Senti na pele a junção de dois mundos tão distantes. Quando o não não significa nada. Quando meus limites não significam nada. Quando a miséria agride a classe média. Quando o pequeno burguês se sente vítima de sua passividade diante das coisas.
Fui atacado e assaltado praticamente na esquina da minha casa. Por três homens, jovens moradores de rua. Não me lembro de ter tido medo. Me lembro que não queria que me levassem a privacidade. Mas essa já perdemos há muito tempo. Não queria que estuprassem meu espaço. Mas já fomos arrombados há muito tempo. Não queria que tivessem me visto. Mas somos constantemente perseguidos. Alvos constantes perambulando no meio das ruas.
Essa noite levaram coisas importantes de mim. E pude sentir uma pequena parte do que pessoas comuns sentem nas suas tragédias pessoais. Me lembro das vítimas da enchente em Belém. A água chegou sem avisar e arrastou o que encontrou pela frente. Eles perderam tudo o que tinham. Casa, móveis, roupas e um pouco da dignidade. Me lembro dos parentes da vítimas do voo 447. Surpreendidos por uma fatalidade. Ninguém esperava que algo parecido pudesse acontecer. E as fatalidades sempre são assim.
Enquanto segurava uma das mãos do assaltante, por um instante, pensei que estava cometendo uma loucura. Deveria entregar tudo o que tinha
Amigoo!! Obrigado pelo carinho!! Que chato essa história do roubo hein?! Bom mas seguem meus contatos: celular: 62-9908-5478/ 3286-1727.
Abração
A arte da Fraqueza
Lá se vai mais um fim de semana. Mais um fim de semana de plantão. Quarenta e seis horas dedicadas ao trabalho. Poucas horas de sono. Muito tempo dedicados aos desfechos de três reportagens.
O cão viajante – um pequeno vira-lata que percorreu trezentos quilômetros escondido na suspensão de um carro. Foi parar em Curitiba e ganhou um dono, um nome e até uma roupa de frio.
A última reportagem da série Bangladesh – oriente desconhecido. A saga do Raul numa das terras mais populosas e pobres do planeta.
E pra fechar, a reportagem da semana: execuções. Uma radiografia de um crime. Sobre o esquema montado para assassinar uma psicóloga de São Paulo.
Três grandes reportagens. Editadas com dedicação e uma característica: objetividade.
A mesma que falta quando passo o meu crachá na catraca e saio do universo da imagem e do som. Como num passe de mágica as decisões se transformam em algo tão complicado pra mim. Os caminhos escolhidos são sempre os mais longos. E se tiver mais curvas melhor. Às vezes gostaria de conduzir a minha vida como edito uma reportagem. Começo pelo meio. Deixo o início da história por último. Só consigo abrir o texto depois que vejo a história formada na minha cabeça. Aí sim a frase de abertura surge. Imponente. Decidida. Objetiva. Consigo ver quando o VT está arrastado. Cansativo. E por inúmeras vezes deixo que a minha vida se arraste. Que o IBOPE de minha existência despenque. Escolho cada imagem. Cada cena como se fosse a principal imagem da matéria. E não sou capaz de escolher uma camiseta para ir à reunião de terça feira. Prefiro sempre a preta do Joy Division.
Consigo controlar editores de imagem fujões e reclamões. Mas não sei administrar as pessoas que estão ao meu lado quando saio da emissora. Escrevo um texto em questão de horas. Fecho uma história numa tarde. E perco horas decidindo o que fazer no meu único dia de folga da semana. Que agonia. Que contradição.
E melhor do que ninguém sei que contradições são o melhor molho das reportagens. Mas elas cansam. Quem aguenta a frase: uma terra de contradições. E uma pessoa de contradições? É pior ainda. Estou cansado. De desperdiçar toda a minha objetividade numa ilha de edição. E toda a minha arte no mundo real. Me irrita ser controlado no pouco tempo livre que me resta. Mas sem o controle sei que vou me perder na primeira esquina. Por isso me deixem sempre só. Assim só eu saberei das minhas mancadas. Prefiro que mexam no meu texto. Mudem completamente a cara dele, mas me deixem só nas minha mancadas. Reescrever minhas ações é bem mais complicado. Hoje estou vazio. Sem almoço, sem lanche e sem janta. Devorei uma caixa de BIZ e agora uma lata de cerveja. Talvez duas. A barba por fazer. A roupa larga. Uma blusa sobre a outra. Queijo em rodela para matar a fome. Fome de quê? Minhas energias foram gastar com um cachorro que fugiu de casa... E achou um dono. Com um mundo que provavelmente vai ficar debaixo d água por causa do aquecimento global e com um crime que chocou meia dúzia de moradores da Vila Madalena e destruiu uma família inteira. Eles não são pequenos. Mas também não podem se tornar maiores do que eu. E hoje me senti pequeno demais.
Meus ombros ficaram pesados. E a neblina invadiu a minha casa. Minha coluna se curvou. E tudo ficou sem graça. Velhos chavões me visitaram. E uma lenda se fez viva. A lerdeza da vida real bateu em minha porta. Entreguei meu crachá para a objetividade e me deixei invadir pelas dúvidas. Nessas horas me lembro de uma cena. Importante pra mim porque me torna quase um artista. Ainda em Goiânia, editando uma das centenas de matérias sobre a Dona Vilma – aquela que roubou o Pedrinho da maternidade e o criou como filho. Cinquenta fitas espalhadas pela ilha de edição. E eu sabia exatamente o que havia em cada uma delas. Estavam comigo havia meses. Eras as coisas mais importantes pra mim havia meses. Minha chefe entra na ilha e me vê escolhendo fita por fita. Parecia inacreditável. Cada cena. Cada rosto daquela mulher exagerada. Estavam todos ali. Nem mesmo eu acreditava no que estava fazendo. Quem me dera poder fazer isso com a minha própria vida. Saber exatamente onde estão as coisas que eu procuro. E num correr de fita achar o que realmente me interessa. Estou cansado de tirar das minhas dúvidas as certezas que vocês assistem. Gostaria de um pouco mais de certeza nas minhas próprias dúvidas. Acho que até aceitaria ser uma anta no trabalho e ágil dentro do meu mundinho. Hoje rodei em círculos. Briguei por três reportagens. Que foram ao ar e em minutos caíram no esquecimento. E fora dali coisas muito reais batiam a minha porta. Se eu pudesse editar a minha vida? Cortaria muitos excessos. Frases de efeito demais. Chavões que não querem dizer nada. Passagens que me levam de nada a lugar algum. Imagens amareladas de mim mesmo... Desfocadas.
E me vem a imagem do maldito cachorro que viajou trezentos quilômetros e achou um dono. Das pessoas em Bangladesh que vivem comendo arroz e tomando chá. E do marido que há oito meses espera, pacientemente a polícia de São Paulo descobrir que mandou matar a mulher. Estou cansado de ter coragem suficiente para contar tantas atrocidades e de ser covarde o suficiente para ignorar a minha história.
Se eu pudesse editar a minha vida? Começaria cortando as longas entrevistas de especialistas que falam sobre mim. Tiraria todas as artes gráficas que tentam explicar como tudo aconteceu. Não me preocuparia com o contraponto. E deixaria várias coisas serem ditas sem checar a procedência antes. Por final, reescreveria algumas coisas ao meu gosto.
E no final deixaria de ser triste como a família destruída por uma execução. Faminto como os bangles que podem desaparecer do mapa... E seria livre como o FOX. O vira lata que fugiu de casa, ganhou um dono e um agasalho.
08 dezembro 2009
Mensagem ao vento...
Ontem à noite meu celular tocou. Aquele som que os celulares fazem quando uma mensagem chega. Uma amiga me mandou algo que precisava compartilhar com o universo... Um carinho em forma de palavras...
Segue:
"Você já parou pra pensar que a sua vida, os seus encontros, as suas escolhas, enfim, os seus passos, tudo isso está recheado de boas histórias? E que os trechos tumultuados são apenas aquela pitada extra de tempero e que ás vezes descompassa a receita? Ou não....afinal, pode até aguçar o paladar para novos sabores!!!!!
Pense nisso!"
E pensei. E foi incrível.
Espero que você também pense nisso.
Segue:
"Você já parou pra pensar que a sua vida, os seus encontros, as suas escolhas, enfim, os seus passos, tudo isso está recheado de boas histórias? E que os trechos tumultuados são apenas aquela pitada extra de tempero e que ás vezes descompassa a receita? Ou não....afinal, pode até aguçar o paladar para novos sabores!!!!!
Pense nisso!"
E pensei. E foi incrível.
Espero que você também pense nisso.
03 dezembro 2009
A casa dos espelhos...

Passo a passo. Era noite.
O som da cidade ficava cada vez mais distante.
Os moradores de rua. E a rua sem os seus moradores. Luzes se apagando.
Pessoas se recolhendo.
Boêmios...
Ladrões e putas.
A cidade seguia a sua movimentação. Estranha, mas compassada.
Os prédios, em sua maioria art decó, emolduravam o meu caminho.
Sacadas redondas.
Linhas retas passeando pelas paredes claras...
Beges.
Azuis, verdes...
Rachaduras e telhados velhos.
O tempo estava presente em cada esquina. Foi assim até chegar à casa dos espelhos. E, por um instante o medo me acompanhou. Meu reflexo não era bem o que esperava encontrar atrás daquela porta.
E durante toda a noite foi o que mais vi: minha imagem refletida.
Era eu que andava por aquele pequeno espaço.
E como num circo podia ver variações de uma mesma imagem.
Baixo...
Alto demais...
Magro demais...
Gordo demais.
Ansioso demais.
Medroso demais.
Demasiadamente pequeno.
Grandiosamente...
Os espelhos me sufocaram. E me alimentaram com um certo ar de mim mesmo.
Descobri que a casa da luz vermelha tem poucos espelhos.
E um pouco de espelho não faz mal a ninguém...
20 novembro 2009
Eu sou um tango...
Como dizia o poeta portenho Discépolo, "o tango é um pensamento triste que se pode dançar".
18 novembro 2009
Um pouco de paciência...
Um pouco de calma.
Um pouco de alma.
Um pouco na palma.
Antes da cama.
Antes que venha a lama.
Antes do que se chama.
Quem clama.
Quem proclama.
Quem reclama.
Antes que a calma desapareça quando a lama invadir a nossa cama.
Antes que a alma acerte a palma na face de quem reclama.
Porque alguém clama... Até proclama...
A alma que ama.
A alma que pede um pouco de paciência.
Um pouco de alma.
Um pouco na palma.
Antes da cama.
Antes que venha a lama.
Antes do que se chama.
Quem clama.
Quem proclama.
Quem reclama.
Antes que a calma desapareça quando a lama invadir a nossa cama.
Antes que a alma acerte a palma na face de quem reclama.
Porque alguém clama... Até proclama...
A alma que ama.
A alma que pede um pouco de paciência.
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